O setor elétrico não está em crise, está em transição 

Temos a foto do Gustavo Ayala, CEO do Grupo Bolt. Ele é um homem de pele clara e cabelo escuro. Ele se apoia sob uma mesa preta e está usando camisa social e terno azul. Atrás dele, há um sofá preto e o letreiro Bolt na parede do escritório.

Por Gustavo Ayala – CEO Grupo Bolt
Cenário Energia – 13/04/2026

O setor de comercialização de energia elétrica atravessa, sem dúvida, um período de forte tensão. A combinação de volatilidade do PLD, restrição de liquidez, aumento da inadimplência e risco de judicialização compõe um cenário desafiador. Ainda assim, tratar esse momento como uma crise estrutural e homogênea pode ser uma leitura simplificada de um movimento muito mais profundo: a transição para um novo modelo de mercado.

O que está em curso no Brasil é uma das maiores transformações do setor elétrico nas últimas décadas. O mercado livre, que há dez anos representava cerca de 20% do consumo nacional, hoje já responde por 43%, com aproximadamente 85 mil unidades consumidoras. Esse avanço ganhou tração recente. Em 2024, mais de 26 mil novos consumidores migraram, um crescimento de 263% em relação ao ano anterior. Em 2025, foram mais 21,7 mil adesões, mantendo um ritmo consistente de expansão.

E esse movimento está longe de desacelerar. A abertura para consumidores de baixa tensão, incluindo pequenos comércios e indústrias, adiciona uma nova dimensão ao mercado. Estamos falando de um universo potencial de cerca de 89 milhões de unidades consumidoras, com impacto direto sobre 6 milhões de pequenos negócios e 400 mil pequenas indústrias.

A estimativa é de um mercado de R$ 250 bilhões, com potencial de gerar uma economia anual de R$ 35,8 bilhões para os consumidores, o equivalente a uma redução média de 19% nas contas de energia. Diante dessa escala, é natural que o setor passe por ajustes. Momentos de estresse de liquidez e volatilidade não são desvios, são características típicas de mercados em rápida expansão, especialmente aqueles que começam a incorporar milhões de novos participantes com diferentes níveis de maturidade.

Nesse contexto, o que muitos interpretam como crise pode, na verdade, ser entendido como um processo de seleção. Em mercados mais sofisticados, a eficiência não é distribuída de forma uniforme. Empresas que operaram com estruturas frágeis de gestão de risco, baixa diversificação ou visão de curto prazo tendem a ser mais expostas em ciclos adversos. Por outro lado, aquelas que investiram antecipadamente em inteligência de mercado, robustez financeira e estratégia de longo prazo estão melhor posicionadas para absorver choques e capturar valor.

A questão da liquidez ilustra bem esse ponto. Em momentos de tensão, a dinâmica do mercado exige agentes capazes de sustentar posições, assumir riscos calculados e oferecer contraparte quando outros recuam. Isso não é apenas uma vantagem competitiva, é uma função essencial para o funcionamento do sistema. Liquidez, afinal, não desaparece: ela muda de mãos.

Outro aspecto central é a própria natureza do negócio. O setor de energia está deixando de ser predominantemente baseado em ativos físicos para se tornar cada vez mais orientado por sistemas, dados e capacidade analítica. Gestão de portfólio, modelagem de risco, previsibilidade de preços e integração tecnológica passam a ser diferenciais determinantes. Nesse novo ambiente, não basta intermediar contratos, é preciso arquitetar soluções.

O horizonte reforça essa leitura. A abertura total do mercado para consumidores de baixa tensão até 2027 e, posteriormente, para o segmento residencial até 2028, deve intensificar ainda mais a complexidade e a competitividade do setor.

Milhões de consumidores deixarão de ser agentes passivos para assumir um papel ativo na escolha de seus fornecedores de energia. Isso exigirá não apenas escala, mas também capacidade de educar o cliente, simplificar decisões e oferecer previsibilidade em um ambiente naturalmente volátil.

Mais do que uma crise, portanto, o setor vive um ponto de inflexão. Há pressão, sem dúvida, mas ela atua como um catalisador de maturidade. Mercados que crescem dessa forma não permanecem inalterados: eles se reorganizam, eliminam ineficiências e elevam o nível de exigência para todos os participantes.

Para quem está preparado, este é um ciclo de oportunidade. Um momento em que disciplina, estratégia e capacidade de execução deixam de ser diferenciais e passam a ser pré-requisitos. Como em toda transformação estrutural, os vencedores não serão necessariamente os maiores, mas aqueles que melhor entenderem, e anteciparem a lógica do novo mercado que já começou a se formar.



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