Por Ciro Neto – CEO Bow-e
CNN Brasil Infra – 08/04/2026
O setor elétrico brasileiro atravessa uma transformação estrutural que combina expansão de demanda, evolução regulatória e avanço tecnológico.
A projeção de crescimento global do consumo de eletricidade em cerca de 75% até 2050, de acordo com a pesquisa da IEA (Agência Internacional de Energia), pressiona governos, empresas e investidores a repensarem modelos operacionais e estratégias de longo prazo.
No Brasil, esse movimento ganha contornos ainda mais relevantes com a abertura total do mercado de energia prevista para 2028, que deve permitir a entrada de aproximadamente 89 milhões de unidades consumidoras no ambiente livre, com potencial de movimentar mais de R$ 250 bilhões.
Esse processo marca uma inflexão semelhante à vivida pelo setor de telecomunicações nas últimas décadas. A abertura, combinada à digitalização e ao aumento da concorrência, transformou um mercado antes concentrado em um ambiente dinâmico, orientado ao consumidor e sustentado por inovação contínua. No setor elétrico, a lógica começa a se repetir: consumidores deixam de ser agentes passivos para assumir protagonismo na escolha de fornecedores, contratos e fontes de energia.
Abertura e escala exigem novos modelos
O crescimento do mercado livre já é consistente. Mesmo representando uma parcela ainda limitada do total de consumidores, concentra uma fatia relevante do consumo nacional de energia. Esse descompasso entre número de clientes e peso econômico indica o potencial de expansão à medida que barreiras regulatórias são reduzidas.
Com a ampliação do acesso, o desafio deixa de ser apenas estrutural e passa a ser também operacional. Atender milhões de novos consumidores, com perfis distintos e demandas específicas, exigirá um nível de eficiência e personalização que não pode ser alcançado por modelos tradicionais. Na Bélgica, por exemplo, a operadora Elia desenvolveu uma ferramenta de IA que reduziu em 41% o erro de previsão de desequilíbrio do sistema, crucial para manter a estabilidade com o aumento de energias renováveis.
Nesse contexto, a inteligência artificial deixa de ser um diferencial incremental e passa a ser um elemento central para viabilizar a escala do mercado.
Dados como base da nova competição
A digitalização da comercialização de energia permite capturar, processar e analisar grandes volumes de dados em tempo real. A partir disso, torna-se possível prever padrões de consumo, estruturar contratos mais aderentes às necessidades dos clientes e otimizar a gestão de portfólio de energia.
Essas inteligências generativas ampliam esse potencial ao automatizar decisões e antecipar movimentos de mercado. Algoritmos conseguem identificar oportunidades de economia, sugerir migração entre produtos e ajustar estratégias comerciais com base em variáveis como comportamento de consumo, sazonalidade e preços.
Esse uso intensivo de dados redefine a dinâmica competitiva. Empresas que conseguem transformar informação em ação ganham eficiência operacional e capacidade de oferecer soluções mais personalizadas, enquanto aquelas que permanecem em modelos analógicos tendem a perder relevância.
Captação e atendimento no centro da transformação
A abertura do mercado também desloca o foco estratégico para duas frentes críticas: aquisição de clientes e qualidade de atendimento. Em um ambiente com maior concorrência, conquistar e reter consumidores passa a depender de experiência, transparência e agilidade. De acordo com a IEA (Agência Internacional de Energia), a adoção de IA na rede elétrica pode gerar economias de até US$ 110 bilhões anualmente e liberar 175 GW (gigawatts) de capacidade de transmissão.
A IA tem papel decisivo nesse processo. Ferramentas de automação permitem escalar a prospecção com maior precisão, segmentando perfis e priorizando oportunidades com maior potencial de conversão. Ao mesmo tempo, soluções de atendimento baseadas em IA aumentam a eficiência, reduzem custos e elevam o nível de serviço, com respostas mais rápidas e personalizadas.
Esse movimento se aproxima do que ocorreu nas telecomunicações, onde a combinação de tecnologia e competição levou à criação de ofertas sob medida e canais digitais mais eficientes. Esse investimento exerce grande impacto para esses negócios, conforme aponta a pesquisa State of AI in Telecommunications 2026, da Nvidia: 90% das operadoras de telecom afirmam que a IA está gerando um retorno positivo sobre o investimento (ROI) e impulsionando tanto a receita quanto a eficiência de custos, enquanto 89% planejam aumentar os gastos com IA em curto prazo. No setor elétrico, a tendência é semelhante, mas com um grau adicional de complexidade, dado o impacto direto da energia nos custos operacionais de empresas e no orçamento das famílias.
Sustentabilidade e eficiência como vetores complementares
Diferentemente de outras transformações setoriais, a evolução do mercado de energia incorpora uma dimensão ambiental relevante. A busca por fontes renováveis e por maior eficiência energética está diretamente conectada à expansão do mercado livre.
Nesse cenário, a inteligência artificial também contribui para otimizar o uso de recursos, reduzir desperdícios e integrar fontes intermitentes, como solar e eólica, de forma mais eficiente ao sistema. O resultado é um ambiente que combina competitividade econômica com ganhos ambientais.
Uma transição orientada por tecnologia
A abertura do mercado de energia no Brasil não é apenas uma mudança regulatória. Trata-se de uma reconfiguração profunda na forma como a energia é comercializada, consumida e gerida. A experiência de outros setores mostra que, quando o consumidor ganha poder de escolha, a inovação deixa de ser opcional e passa a ser condição de sobrevivência.
Nesse novo contexto, a inteligência artificial não é apenas uma ferramenta de apoio, mas um elemento estruturante para sustentar crescimento, garantir eficiência e viabilizar um mercado mais dinâmico e acessível.
A energia do futuro será resultado dessa convergência: mais aberta, mais orientada a dados e cada vez mais inteligente.
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