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Urgência da Descoberta Pública de Preço

Mercado Livre de Energia

Urgência da Descoberta Pública de Preço

Tecnologia & Inovação: como dados e inteligência estão transformando o setor de energia

Urgência da Descoberta Pública de Preço

O Brasil ainda carece de um pilar fundamental presente em mercados maduros: a descoberta pública e transparente de preços. Neste artigo, exploramos por que o preço da energia no país ainda é calculado em vez de descoberto, os impactos da volatilidade regulatória nos contratos e as soluções necessárias para garantir previsibilidade e competitividade para as empresas.

Hand reaching towards floating percentage symbols

Mercado Livre de Energia

Em 2016, uma mesa de operações típica no mercado brasileiro de energia refletia um cenário curioso. Os operadores tinham a plataforma de negociação aberta na tela, mas a ferramenta que realmente importava era o comunicador instantâneo. O preço da energia no Brasil não se formava em um painel público e transparente, mas sim em conversas privadas, de um para um, com quem se conhecia. A pergunta de abertura era padrão: "Tem alguma movimentação?".

Para quem possuía a rede de contatos certa, descobrir o preço era rápido. Bastavam algumas ligações. O desafio real, contudo, era encontrar liquidez — ou seja, alguém disposto a fechar negócio no volume e prazo necessários. A tecnologia para um mercado eficiente já existia. A bolsa de valores brasileira, por exemplo, operava com tela, livro de ordens e liquidez pública para qualquer ação. O que faltava ao mercado de energia não era tecnologia, mas sim arquitetura institucional.

Quase uma década depois, as plataformas cresceram e as curvas de preço ganharam publicidade. Contudo, a liquidez em prazos mais longos continua sendo um desafio crítico. E um preço que se enxerga, mas não se executa em volume, é um sinal frágil. Com a abertura histórica do mercado livre prevista para 2027 e 2028, milhões de consumidores entrarão em um ambiente onde até os profissionais lutam para encontrar a contraparte ideal.

A Função Essencial do Preço: Agregador de Conhecimento

Em 1945, o economista Friedrich Hayek publicou um artigo revolucionário respondendo a uma pergunta central: é possível um planejador central saber tudo o que o mercado sabe? A resposta foi um categórico não. O verdadeiro problema econômico não é alocar recursos que todos conhecem, mas sim agregar um conhecimento disperso que não existe concentrado em lugar nenhum.

O preço, na visão de Hayek, não é um mero número. É o mecanismo de comunicação mais eficiente já criado para transmitir esse conhecimento disperso, sem que ninguém precise reuni-lo.

A crise energética europeia no inverno de 2022 é o exemplo perfeito dessa dinâmica. A Rússia cortou o fornecimento de gás; a França sofreu uma seca severa que impactou suas usinas; e a ausência de ventos no Mar do Norte derrubou a geração eólica. Três eventos distintos, simultâneos e geograficamente separados. Um consumidor na Alemanha não precisou entender de geopolítica, hidrologia e meteorologia para reagir. Ele apenas olhou para o preço do megawatt-hora, que disparou. O mercado inteiro se ajustou — indústrias reduziram turnos, governos pouparam energia — porque o preço carregou a informação.

O Cenário Brasileiro: Cálculo vs. Descoberta

Quando traduzimos esse conceito para o mercado elétrico brasileiro, encontramos um gargalo estrutural. Imagine que um gerador decida antecipar uma parada de manutenção, ou que indústrias comecem a reduzir seu consumo por desaquecimento econômico. No mercado ideal, cada agente se posiciona com base nessa leitura futura, e a interação de compra e venda condensa essas visões em um preço público.

No Brasil, no entanto, o preço de curto prazo não faz esse trabalho. O Preço de Liquidação das Diferenças (PLD) é calculado por uma cadeia de modelos matemáticos de otimização que simula o despacho do sistema elétrico. Trata-se de uma metodologia sofisticada, mas, no fim das contas, é um cálculo, e não uma revelação de mercado.

O PLD não agrega a informação privada dos agentes. Ele não descobre o que compradores e vendedores acreditam que a energia valerá no futuro; ele calcula o que custaria produzir mais um megawatt-hora dado o estado presente dos reservatórios e do sistema.

As Duas Volatilidades: O Risco Que Paralisa

O fato de o preço ser calculado gera um problema duplo de volatilidade. A primeira é a volatilidade de modelo: quando premissas sobre chuvas ou demanda mudam, o modelo altera o PLD. Essa variação é incômoda, mas agentes de mercado sofisticados conseguem modelar e estimar esse ruído.

O perigo real reside na segunda camada: a volatilidade de governança. As regras de cálculo do PLD podem ser alteradas administrativamente (tetos, pisos, parâmetros de aversão a risco). Essa volatilidade é impossível de ser modelada matematicamente, pois ninguém consegue prever com exatidão uma decisão administrativa futura.

Um exemplo claro ocorreu recentemente com a definição dos parâmetros do mecanismo de aversão a risco (CVaR). Enquanto a definição oficial não era publicada, o mercado de contratos futuros travou. Compradores e vendedores tinham visões opostas sobre o risco regulatório. O spread (diferença de preço entre compra e venda) abriu tanto que os negócios pararam. A liquidez não sumiu por medo das chuvas, sumiu por incerteza sobre a regra.

O Custo Invisível na Conta do Consumidor

Quando a regra não é clara no longo prazo, o mercado perde profundidade. Hoje, o Brasil tem negociações de curto prazo, mas os prazos longos — fundamentais para atrair grandes investimentos de infraestrutura — sofrem com a falta de liquidez. Isso acontece porque o risco regulatório de como o PLD será calculado daqui a três ou cinco anos é embutido no preço.

Todo contrato a termo no Brasil carrega exposição ao PLD para liquidar diferenças. Portanto, quem compra energia para 2028 não está apenas assumindo o risco de mercado (chuva, sol, demanda), está também assumindo um risco regulatório.

Para se proteger dessa incerteza, o vendedor tem apenas dois caminhos. O primeiro é cobrar um prêmio de risco elevadíssimo, encarecendo a conta de energia do cliente industrial ou comercial. O segundo é assumir a exposição cega, correndo o risco de quebrar caso as regras mudem desfavoravelmente. Em ambos os cenários, o ecossistema de negócios sai perdendo.

A Separação Necessária: O Caminho para a Maturidade

A história dos mercados internacionais mostra a saída. Quando a bolsa de Nova York estruturou os futuros de gás natural na década de 1990, e quando a Europa criou o Nord Pool, uma regra de ouro foi aplicada: o preço que liquida diferenças no curtíssimo prazo não deve ser o mesmo que orienta os grandes contratos e decisões de investimento de longo prazo.

No Brasil, exigimos que o PLD faça as duas coisas ao mesmo tempo. A consequência é que ele contamina as sinalizações de longo prazo com o ruído regulatório de curto prazo.

O país já possui plataformas sólidas e uma base crescente de negociações a termo. O que falta é permitir que o modelo apenas ancore as referências iniciais, deixando que a oferta e a demanda reais do mercado descubram o preço final em uma plataforma com contraparte central garantida. Estabilizar as regras de formação de preço é o passo essencial para retirar da curva de contratos um risco que não pertence à economia real, mas sim à burocracia.

O mercado livre brasileiro tem potencial para ser uma obra-prima de eficiência global, combinando energia limpa abundante com atração maciça de capital estrangeiro. No entanto, para que essa promessa se cumpra, o sinal de preço precisa deixar de ser um cálculo opaco de balcão e passar a ser um mecanismo de descoberta público, transparente e imune a sobressaltos regulatórios.

A transformação já começou e estar bem assessorado é a principal vantagem competitiva que a sua empresa pode ter na transição energética.

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