Mercado Livre de Energia: Volatilidade dos preços durante a pandemia

Por: bolt
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As medidas de isolamento social causaram uma profunda queda no consumo de energia elétrica. Os preços futuros de energia elétrica recuaram a níveis abaixo de 100,00 R$/MWh, e, assim, permaneceram estagnados até agosto de 2020.

No entanto, a partir de setembro, os valores dos contratos de energia experimentaram uma alta volatilidade atingindo em novembro o máximo permitido pela regulação (559,75 R$/MWh). A forte alta se deu especialmente por conta dos baixíssimos volumes de chuvas (que afeta diretamente a capacidade de geração hidrelétrica) e da retomada da demanda por energia.

Do lado da oferta, durante o período seco de chuvas de 2020, as afluências dos principais rios e bacias estiveram abaixo da média histórica, essa tendência de baixa se intensificou desde setembro. Em outubro de 2020, as afluências do subsistema elétrico Sudeste e Centro-Oeste inauguraram uma nova mínima em 90 anos. No subsistema elétrico Sul as afluências atingiram a segunda mínima histórica. Esse cenário de extrema seca permaneceu para o mês de novembro e dezembro.

Victor Kodja

Do lado da demanda, desde setembro houve uma retomada considerável no consumo de energia elétrica. A carga de setembro e outubro cresceu cerca de 4% com relação aos mesmos meses de 2019. Além das altas temperaturas registradas nestes dois meses, o crescimento foi motivado também pela retomada econômica. Alguns setores, sobretudo exportadores, mantiveram ritmo normal durante a pandemia. Outras indústrias eletrointensivas, como por exemplo a de produção de aço, retornaram ao pleno funcionamento a partir de agosto.

A trajetória positiva do consumo e a negativa das afluências proporcionaram uma disparada nos preços de energia. Apesar disso, o mercado de comercialização se apresentou sempre com liquidez, vide os recordes de volume de negócios no mês de outubro (8.100MW médios) realizados no Balcão Brasileiro de Comercialização de Energia (BBCE). Esse ambiente de liquidez permitiu a eventual liquidação ou troca de posições pelos participantes, o que favoreceu a gestão de risco das comercializadoras e de outros agentes do mercado livre.

O mercado de comercialização de energia elétrica funciona como um amortecedor da volatilidade, provendo hedges e proteções aos demais agentes do setor elétrico. As comercializadoras tomam o risco do preço da energia e permitem que as demais empresas do setor, consumidores e geradores, tenham previsibilidade, reduzam seus riscos e, por conseguinte, mantenham a saúde nanceira em seus negócios. Assim, esse atributo proporcionado pelas comercializadoras se torna uma importante engrenagem para o desenvolvimento do setor elétrico e da economia. Dessa forma, em um mercado volátil, as comercializadoras atuam como provedores de liquidez, trazendo possibilidades de negócios, pela agilidade de realização. Quanto maior a liquidez do mercado, melhor se torna o funcionamento dessa engrenagem de hedges e proteções.

Por outro lado, a falta de negócios aumenta os custos de transações do mega watt-hora. Assim, os participantes do mercado livre de energia elétrica incorrem em maiores custos em suas negociações. Importante que se incentive, com maior segurança regulatória, a liquidez no mercado livre, isso criará um ciclo virtuoso de maior segurança para o mercado livre.

Gustavo Ayala, da Bolt Energy

Historicamente, o mercado livre de energia vem evoluindo e demonstrando maturidade para lidar com situações adversas. Em fevereiro de 2019, em um movimento de subida geral de preços, o mercado se deparou com algumas empresas com diculdades em cumprir seus compromissos. No entanto, devido a sua capacidade transacional, acertos foram realizados. Apesar de toda consternação causada à época, o impacto para a ponta nal (consumidores) foi quase nulo. Novamente, no início da pandemia, abril e maio, os consumidores do mercado livre buscaram negociar a situação dos contratos vigentes sem necessidade de judicialização ou utilização de cláusulas extraordinárias de denúncia contratual, o que foi realizado com bastante sucesso pelos comercializadores e geradores.

Ainda que a súbita alta dos preços traga preocupações naturais e inerentes das características do nosso mercado, o nível de qualicação dos agentes vem apresentando melhoras, atraindo novos players relevantes. Com isso, a gestão de risco evoluiu muito, o mercado está retomando cada vez mais liquidez, o que proporciona uma melhora no ambiente de negócios. E mesmo que os riscos de default ou não cumprimento de contratos ainda existam, a alta liquidez oferecida permite que ajustes mais rápidos de posição sejam realizados, reduzindo consideravelmente o nível de risco e custos nas transações, diferentemente do que ocorria até pouco tempo atrás.

Outra evolução importante foi a maior oferta de crédito às comercializadoras, por parte dos bancos, seguradoras, fundos de investimentos em direitos creditórios e demais agentes financeiros. Isso permitiu que as comercializadoras reforçassem ainda mais os seus caixas.

Ainda estamos vivendo em tempos de pandemia, o mercado livre de energia passou por momentos adversos e mais uma vez vem demonstrando segurança. A expectativa da normalização do cenário econômico com a vacina ou imunização de rebanho, certamente irá favorecer ainda mais o ambiente livre de comercialização de energia elétrica. Além disso, os tão esperados derivativos de energia elétrica potencializam as perspectivas positivas do setor.

Gustavo Ayala é CEO da Bolt Energy e Victor Kodja é Board Member do Balcão Brasileiro de Comercialização de Energia (BBCE).


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